Continuando pelas divagações do ser, lembrei-me desta narrativa portuguesa. Escrevi este ensaio em 2004. Ontem, a obra do escritor português aflorou em minha memória, após reflexões sobre essência, desdobramentos de personalidade e máscaras que usamos para a sociedade. A rotina diária nos faz esquecer da necessidade do mergulho introspectivo, da conversa com o ser essencial que nos habita e a possibilidade de renovação em nossas vidas.
O Barão apresenta-se como um ser rústico, regional, porém com o desenrolar da narrativa torna-se grandioso na sua universalidade. Da mesma forma o inspetor, pois a aristocracia falida (o Barão) e o pequeno-burguês (o inspetor) acomodado na sua posição de funcionário público estável, sem surpresas na sua vidinha monótona e sem crescimento ou mudanças encontra-se em qualquer lugar do mundo.
Essa obra tida como uma das máximas da moderna narrativa portuguesa, nos remeteu a um mundo um pouco diferente que encontramos em “Confissão de Lúcio” de Sá-Carneiro, totalmente simbólico, introspectivo sem ligação com o plano real. O Barão nos faz tomar um choque no final, pois o que aconteceu foi ligado ao plano físico. Sá-Carneiro levou-me a dispersão e visualizar os desdobramentos da sua personalidade em um plano totalmente abstrato.
O despertar súbito na parte final da narrativa deve-se ao divagar a que somos levados junto ao Barão e do inspetor. Essa trama é muito envolvente. Houve uma projeção, uma transposição de ambiente e conseguimos nos situar bem ao lado das personagens, dentro daquele palácio ou perdidos naquela escuridão assustadora (símbolo da solidão humana). Invadimos aquele castelo e mergulhamos nas sensações que ambos saboreavam.
As figuras dicotômicas do Barão e do inspetor permite-nos visualizar o quanto o ser humano é controverso na relação: aparência para a sociedade e sua essencialidade.
A obra aborda as características do presencismo como a originalidade, pois nada havia sido feito como o Barão, a marca da autenticidade das personagens deflagrada pelo álcool e a presença da realidade concreta, sempre no espaço da sala de jantar e o acidente real do Barão, que consta na última página do livro, o qual nos acorda para o plano concreto e chega a nos causar um impacto.Na ocasião divagávamos nas profundezas do ser essencial, esse abismo que mergulhamos junto com as personagens.
Esse período literário é gratificante, a progressão do Simbolismo para o Orfismo e posteriormente o Presencismo trata-se de algo maravilhoso na literatura, a descoberta do ser humano, o que lhe é intrínseco, as entranhas psicológicas, o mistério do homem, que na maioria das vezes não conseguimos desvendar.
O humanizar característica marcante da obra, nos dá uma propensão à reflexão, para nos analisarmos, procurando o conhecimento do que realmente somos juntamente com o meio social em que estamos inseridos.
Temos a impressão que quantas leituras fizermos da obra, novos direcionamentos de interpretações podemos obter da narrativa, possibilidades de leituras infindas, no âmbito social, histórico, estrutural, poético.
Mostrando postagens com marcador presencismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador presencismo. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)
